Remorsos

Estava tudo dito. Foram embora. Separados. Seguindo direções opostas:
Dei meia dúzia de passos trémulos e hesitei: olho, não olho; olho, não olho; olhei.
Ainda caminhei, eu, macho como sou, de aspeto inabalável, mas assim que pude, virei-me: ela continuava, com aquela postura dela, tão ela, fêmea como é, de aspeto audaz.
Ele não olhou para trás -pelo menos não enquanto eu o observava- e eu senti-me idiota, tão eu, fraca como sou, de aspeto ruinoso.
Ela não hesitou; esperei ouvir os seus passos a dirigirem-se na minha direção, e depois um grito ao longe "Espera! Não vás! Fica." ou sentir um abraço envolvente e um sussurro ao ouvido "Fica comigo." e eu com ar surpreendido diria "Ah, finalmente! Estava a ver que não!"; mas não o fez; nem olhou para trás...
Quis correr até ele; gritar-lhe para não ir embora; mas seria inútil e tolo; por isso continuei e não voltei a olha-lo.
Fiquei ali, petrificado "Vira-te! Por favor, vira-te! Olha para mim...", mas ela não olhou; observei-a tornar-se num ponto, até que deixei de a ver; nunca mais a vi, desde aquele dia; é um peso que carrego na consciência e que me causa insónias -não a devia ter deixado ir;
Agora vejo-o em todo o lado: as suas expressões; o seu andar; "ah este perfume... tão ele"; a sua voz; mas não és tu, nunca és; nunca mais o vi, desde aquele dia; continuo a procurá-lo em todos os lugares; arrependo-me de não ter corrido até ele, de não ter feito figura de otária: "Fica! Não vás, por favor" e as lágrimas a escorrem-me no rosto.

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