Uma concha que é cinzeiro
Que idiotas não são esses que trocam as madrugadas pelos dias monótonos? Que vivem convencidos que uma madruga em claro arruinará o dia de amanhã? Mal conhecem eles a pureza da noite, a essência de uma madrugada solitária. É a altura do dia em que a claridade se foi e tudo se torna misterioso
e confuso. A nossa mente inunda-se de pensamentos, que a agitação do dia
não permitiu trazer à tona.Todos se calam, assim dita a regra, exceto os amantes e os solitários -que diferem nos gemidos e nos gritos da alma, respectivamente. As madrugadas aprendem-se a viver: em primeiro lugar, não devemos falar; em segundo não devemos quebrar o silêncio. A brisa fresca que entra pela janela, ou que nos toca o corpo no terraço daquela casa de verão, arrepia-nos a pele, mas é doce e calorosa. De repente, deixamos de ser simples vácuos e torna-mo-nos em perguntas sem respostas: finalmente sentimos alguma coisa. Os cigarros que acendemos são, como Eça tão bem os descreveu, "pensativos". E ardem rápido, sempre tão rápido. Ainda este não ardeu e já está a pedir outro. Observamos o fumo elíptico a subir aos céus. As estrelas não sussurram, a lua não questiona e a escuridão não permite ver mais além. Às três da manhã és apenas tu, ou, se tiveres sorte, és tu e mais alguém: a partilharem uma cama desfeita, um areal quente, um quarto-crescente. E o som sereno das ondas soa lá longe, como se nos recolhesse e devolvesse de imediato. Fechas os olhos e deixas-te embalar no silêncio efémero e juntos dançam um slow.
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